Educ@ação: Resenha
EDUC@ação - Rev. Ped. - UNIPINHAL – Esp. Sto. do Pinhal – SP, v. 01, n. 03, jan./dez. 2005
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PRÁTICAS INTERDISCIPLINARES NA ESCOLA
Clementina Terezinha de Jesus Monfardini1
FAZENDA, Ivani Catarina Arantes (org.). Práticas Interdisciplinares na Escola. São
Paulo: Cortez, 1993
O Livro Práticas Interdisciplinares na Escola de Ivani Catarina Arantes
(Org.) apresenta uma coletânea de dezesseis textos de autores que estudaram,
durante um ano, questões teóricas de interdisciplinaridade que foram modificadas por
seus autores conforme o grupo considerou necessárias.
Os autores foram alunos dos cursos sobre Interdisciplinaridade;
Interdisciplinaridade e Prática Pedagógica; Currículo; Comunicação e Pesquisa; e
Epistemologia, ministrados na PUC São Paulo pela professora Ivani C. A. Fazenda
(coordenadora da obra).
Esses autores, apesar da insegurança percebida e vivida durante todo o
trabalho, produziram seus textos da forma mais subjetiva possível a partir de suas
práticas, com a coragem de falar sobre elas e ao mesmo tempo analisando-as sob o
paradigma teórico interdisciplinar que foi sendo construído com a própria prática.
Tiveram a oportunidade de viver e exercer a interdisciplinaridade coletiva na sala de
aula no curso que freqüentavam, exercitando-se nas práticas do aprender a aprender,
do aprender a ensinar e do aprender a estudar.
Ivani Fazenda apresenta dois textos constituídos por ela, produzidos para
outros eventos que foram lidos e discutidos pelo grupo. No primeiro capítulo, a obra
aborda o tema: Interdisciplinaridade: definição, projeto, pesquisa, estabelece as
relações entre um conhecimento interdisciplinar, enfatizando que os currículos
organizados pelas disciplinas levam o aluno ao acúmulo de informações. Ao contrário,
o pensar interdisciplinar tenta, através do diálogo com outras formas de
conhecimento, interpenetrar por elas. Considera importante o conhecimento do senso
comum que, ampliado através do diálogo com o conhecimento científico, adquire uma
dimensão libertadora, possibilitando enriquecimento da nossa relação com o outro e
com o mundo.
O importante para a autora é ter em mente que um projeto interdisciplinar não
é ensinado mas sim vivenciado; exige a responsabilidade individual e ao mesmo
tempo um envolvimento com o projeto propriamente dito, com as pessoas e com as
instituições que fazem parte desse projeto.
É essa prática do diálogo com outras áreas do conhecimento que nos leva às
relações e às conexões de idéias, fazendo-nos perceber, sentir e pensar de forma
interdisciplinar, exigindo a necessidade de transpor barreiras e a ousadia para inovar,
criar e principalmente passar da subjetividade para a intersubjetividade.
1 Docente do Curso de Pedagogia da Unipinhal
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No segundo capítulo: Ciência e Interdisciplinaridade, a autora Maria Elisa
de M. P.Ferreira aborda a visão holística de mundo como a constituinte da essência da
interdisciplinaridade. “Ser interdisciplinar é saber que o universo é um todo [...]”;
interdisciplinaridade é uma atitude, isto é, a externalização de uma visão holística de
mundo. Apresenta o significado do vocábulo física (physis) traduzido hoje por
natureza, que designa a ciência que tem servido de suporte às demais e, ao mesmo
tempo, o próprio fato da existência. A autora ainda mostra a distorção do significado
da palavra grega physis na civilização latina, onde passou a ser traduzida por natureza
(ente natural) fazendo nascer a metafísica, sendo a ciência multiplicada em filosofia,
arte, religião, seguindo caminhos opostos e uma visão fragmentada do mundo.
Hoje, a unidade e a totalidade do universo exigem o repensar da ciência
fragmentada e o significado de interdisciplinaridade, considerado o prefixo “inter”
como “troca” e disciplina “ciência”: daí o ato de troca, de reciprocidade entre as áreas
do conhecimento.
No terceiro capítulo: Interdisciplinaridade: uma tentativa de
compreensão do fenômeno – o autor Ismael Assumpção apresenta como objetivo a
necessidade de compreender a interdisciplinaridade em seus fundamentos, com a
intenção de analisá-la a partir dos seus elementos constitutivos. O termo pode ser
compreendido a partir de seu significado original, dando-nos a possibilidade de pensar
em trans-disciplinaridade, ou seja, no caráter dinâmico da interdisciplinaridade, na
ação unificadora do conhecimento que é resgatada na dialética homem-mundo.
No quarto capítulo: Aspectos da história desse livro, a autora Dirce
Encanación Tavares procura explicar como foi se formando o grupo de estudos
dedicado à interdisciplinaridade, composto por 22 membros provenientes de diferentes
localidades brasileiras, com profissões diversificadas, personalidades diferentes,
porém, com um único objetivo: querer pesquisar e trocar.
No quinto capítulo: Introduzindo a noção de interdisciplinaridade, de
Sandra Lúcia Ferreira. Para conceituar interdisciplinaridade, utiliza-se de uma
metáfora: o conhecimento é uma sinfonia. Para sua execução, muitos elementos
devem estar presentes como: os instrumentos, as partituras, os músicos, o maestro, o
ambiente, a platéia etc; o projeto é a execução da música; a participação de todos é
necessária para que a sinfonia aconteça; a integração é importante, mas não é
fundamental; para sua execução é preciso harmonia do maestro e a expectativa dos
que assistem.
A interdisciplinaridade tem a idéia norteada por eixos básicos: a interação, a
humildade, a totalidade, o respeito pelo outro e é também marcada pelo sentimento
de intenção consciente, clara, objetiva e não apenas pela interação de todos os
elementos do conhecimento.
Do capítulo sexto ao décimo terceiro, cada autor relata experiências educativas
interdisciplinares, procurando demonstrar que a prática interdisciplinar é um processo
construído coletivamente, embora cada um assuma a sua metodologia, conteúdos e
estratégias de aprendizagem.
O capítulo décimo quarto constitui outro texto apresentado pela autora, cujo
título é O trabalho docente como síntese interdisciplinar, apresentado no V
Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino, UFMG, Belo Horizonte em outubro
de 1989. Procura contradições que são enfrentadas no trabalho docente e como estas
têm determinado uma postura pedagógica que se encaminha de um prática empírica à
construção de uma prática reflexiva.
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No capítulo seguinte: O questionamento da interdisciplinaridade e a
produção do seu conhecimento na escola, a autora Regina Bochiniak se dispõe a
refletir sobre interdisciplinaridade como elemento indispensável para se repensar o
processo de educação na sociedade atual.
Considera que a bibliografia específica sobre interdisciplinaridade apesar de
incipiente e a citação da palavra interdisciplinaridade em produções científicas
recentes muito utilizada, deixará de ser citação exclusiva da área de educação .
No décimo sexto capítulo, com o título: Ubaiatu, “canoa das águas
aplaudentes”... um lugar para a interdisciplinaridade; surgem as ilustrações em
branco e preto que mostram o “Ubaiatu”, ou seja, um espaço-teatro, projeto que
permite o uso de um espaço para o movimento das partes durante o espetáculo
(espaço é o ato teatral e a platéia faz parte do cenário). A sua multiplicidade permite o
uso interdisciplinar do espaço e o teatro se transforma em sala de aula, laboratório,
espaço para projeções, concertos, observatório.
Os autores, em quase todos os textos, referem-se à obra de Fritijof Capra,
autor do livro “O ponto de Mutação”, que nos permite refletir sobre o exercício de um
novo paradigma, isto é, uma nova concepção de mundo, numa visão holística e numa
teia inseparável de relações e probabilidades de conexões.
Outros autores citados, como Paulo Freire, Moacyr Gadotti, Japiassu, Libâneo,
deram o embasamento teórico necessário para que o grupo, através de uma reflexão
epistemológica cuidadosa, tivesse a possibilidade de avanços, deixando de lado os
conhecimentos tradicionalmente sistematizados e organizados para que, transpondo
as barreiras da insegurança, ser capaz de ousar na busca, na pesquisa, na inovação,
na construção do projeto interdisciplinar.
Quanto ao conteúdo, os textos são contextualizados com depoimentos de
professores que deixam transparecer uma tendência pedagógica crítico-libertadora.
Questionam a realidade das relações do homem com a natureza e com os outros,
numa postura dialógica e inovadora, ousando na busca de novos encontros do fazer
educativo.
Os textos levam ainda ao questionamento e ao aprofundamento das reflexões
para que o educador compreenda melhor a sua prática em sala de aula, que não deve
ser olhada apenas disciplinarmente para não acarretar limitações que acabam
empobrecendo e fragilizando a evolução da escola atual.
Os textos não são longos, apresentando uma linguagem acessível, sendo
alguns enriquecidos com poemas e introduzidos com pensamentos de Bertold Brecht,
William Blake.
Destacam-se os dizeres da autora: “Perceber-se interdisciplinar é o primeiro
movimento em direção a um fazer interdisciplinar e a um pensar interdisciplinar”.
Baseando-se nessa maneira de pensar interdisciplinaridade, a autora de um
dos textos, Maria Elisa de M. P. Ferreira, fez a introdução através do poema:
“Perceber-se interdisciplinar”: “Perceber-se interdisciplinar é juntar esforços na
construção do mundo, Desintegrando-se no outro, para com ele, Reintegrar-se no
novo...” (pág. 11)
Em síntese, o livro pode ser usado no Ensino Superior, no Curso de Pedagogia,
pois aborda um tema complexo – a interdisciplinaridade, que exige ainda muito estudo
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e investigação. No entanto, cada autor procura conservar a linguagem simples e clara,
visando a uma rápida comunicação ao abordar as questões de interdisciplinaridade no
cotidiano escolar de forma mais compreensiva, deixando claro os seguintes princípios:
no trabalho interdisciplinar não é possível a justaposição de disciplinas, é mais intenso
do que a multidisciplinaridade ou a pluridisciplinaridade. É preciso uma postura
interdisciplinar, devendo existir imbricações dos diferentes campos do conhecimento.
No entanto, é imprescindível que o professor conheça o conceito de cada disciplina
envolvida, para que possa integrá-la.
Daiane...
ResponderExcluirMuito bom o seu blog. Continuando trabalhando e melhorando.
Bom trabalho.